Turismo

LGBT+ no Egito: Ser Lésbica na Terra dos Faraós, Uma Experiência Agridoce

Depoimento enviado por: Stephanie Muller

Estar no Egito e acumular minorias políticas é uma experiência agridoce. Meu corpo cis denuncia uma delas de cara – sou mulher. Já o resto, marcas carrego comigo em meu corpo, que criei em meu corpo para externalizar minha identidade, denunciam em partes. As tatuagens, meus pelos, meu cabelo colorido na época… eram escaneados com olhos de espanto, alguns de admiração talvez? Pelas cores que eu tinha e quem vivia lá não podia marcar também no corpo assim como eu. Entre mulheres com nojo dos meus pelos no vagão de trem a casais largando seus bebês no meu colo para tirar foto, eu não sabia como reagir, se sentir um ET é bom no início, engraçado até, mas só no início.

Será que esses mesmos casais deixariam suas crianças em meu colo se soubessem que eu sou… lésbica? Será que as crianças ainda me olhariam admiradas se soubessem quem eu sou, quem eu realmente sou? Estar no Egito, no coração do Egito, em Cairo, vivendo com os nativos, é uma experiência agridoce.

Uma noite (vocês sabiam que as noites não dormem lá?) decidi andar de mãos dadas com minha amiga pelas ruas de Downtown. Sim, demonstrar afeto por outra mulher ali no bairro onde a civilização nasceu. Olha Deus, olha Ala, eu sinto afeto por outras mulheres! Eu e minha amiga, extasiadas pela cidade nova e pela segurança dos nossos -muitos- amigos homens nativos que nos rodeavam, percebemos os olhares, mas só. Já, no rosto dos nossos amigos, nativos, que falavam árabe, que entendiam os comentários que os outros estavam fazendo, a expressão era outra. Quais comentários seriam aqueles? Nem eles quiseram nos dizer, talvez seja melhor.

Estar no Egito é uma sensação agridoce que experimentei de peito aberto, mas até onde? Experimentei de peito aberto, mas só parte dele. Minha sexualidade eu deixei de lado. Vi sim mulheres se beijando em festas do outro lado do país, mulheres estrangeiras é claro, e vi com nojo os homens que se amontoavam ao redor. Sim, em uma cidade que não seja no coração da civilização pode… pode como entretenimento, pode como objeto sexual – mas, afinal, não é assim aqui também? Não somos nós lésbicas aceitas muitas vezes só para o divertimento masculino?

Stephanie esteve no Egito entre 2017 e 2018

Depois de um tempo lá comecei a tentar entender mais sobre o que afinal é ser uma diversidade sexual no Egito. Os comentários eram de histórias de mulheres detidas por darem um selinho em um café, policiais que seguiam homens gays no Tinder… mas também, quando perguntamos aqui no Brasil, o que ouvimos? Ontem mesmo meu pai me enviou uma notícia de um menino homossexual estuprado e tatuado à força com palavras homofóbicas. Tatuado em seu corpo, esse corpo mesmo que falei que eu carrego minhas tatuagens como forma de orgulho. Um menino de um estado vizinho ao meu, um homenzinho da minha idade, um menino que mora na mesma cidade onde tantos amigos meus moram.

Ainda assim, me sentir no corpo de uma mulher lésbica no Egito as vezes me causava até conforto. Lembro de pensar que eu não entendia o que falavam, e no geral eu me sentia segura – palavras não me ferem. Não me ferem porque eu não entendia o que proferiam. As vezes eu me sentia mais segura no meu corpo de mulher lésbica, no meu corpo menos gênero que de outras mulheres, porque eu não precisava esconder nada. Eu não uso saias mesmo, não gosto de roupas curtas, não seria chamada de “vadia” como as outras. Sim, eu sentia que no Egito o que fere mesmo são as palavras, mas, afinal, eu não as entendia – que bom!

Afinal, estar no Egito é mesmo uma experiência agridoce… para mim. Para mim que deixei minha sexualidade de lado por lá, que falava dela com quem eu conhecia lá – e sim, era muito bem aceita… eu acho? Era aceita porque não era da família, né? As mulheres que faziam parte das famílias dos meus amigos estavam em casa, l o n g e.

Foi uma experiência agridoce para mim, mas pode não ter sido para muitos. E não  é, para muitos que decidem fazer do Egito sua casa, ou nem decidem, não tem opção, nasceram lá. Para estes, é uma guerra, onde a gente já sabe quem é o ganhador.

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